Ousadia para assumir riscos, disciplina para perseguir objetivos, resiliência para enfrentar os momentos difíceis e capacidade de unir pessoas em torno de um propósito. Essas são características fundamentais para quem lidera equipes e busca o alto rendimento no esporte – e também para quem empreende.

O técnico Ricardo Amendola conhece bem o peso dessas escolhas. Afinal, antes de assumir a equipe feminina de vôlei Cora São Caetano, em 2023, ele deixou um emprego com carteira assinada em um dos maiores clubes do Brasil e apostou todas as suas fichas em um projeto em construção. Uma decisão que exigiu coragem para sair de um cenário conhecido e convicção para abraçar novas possibilidades.

“Abri mão de um de um bom salário como CLT para receber metade como PJ, investindo tempo e dinheiro em uma possibilidade de evoluir na carreira”. 

À frente do Cora São Caetano, Ricardo também sabe que liderar vai muito além de cobrar resultados. É preciso dar o exemplo, entender diferentes perfis, construir confiança e manter o grupo unido mesmo diante das adversidades. 

“Existem decisões difíceis que precisam ser tomadas quando você está em uma posição de liderança. Nem sempre serão agradáveis, mas devem ser tomadas com convicção e responsabilidade”, afirma.

Em entrevista exclusiva ao DNA Empreendedor, o técnico conta sua trajetória, compartilha aprendizados do esporte que podem inspirar empreendedores a tomar decisões, desenvolver equipes e perseguir objetivos de longo prazo. E também revela sobre como pretende conquistar seu próximo grande desafio: levar o São Caetano aos playoffs do Campeonato Paulista e conduzir a equipe à final da Superliga B, em busca de uma vaga na elite do vôlei feminino brasileiro.

DNA Empreendedor: Como é sua vida fora do vôlei?

Ricardo Amendola: Tenho 44 anos, sou casado, tenho uma filha de 19 anos e dois enteados. Fora do vôlei, sou bem tranquilo. Gosto de ficar em casa e viajar quando a agenda permite, passar tempo com a família como um todo, incluindo pais, sogros, irmãos, cunhados e todos que couberem. 

Como é um dia típico seu? Você mora perto do ginásio do Cora São Caetano? Tem algum hábito ou ritual de que não abre mão?

Hoje em dia moro perto do clube. Tenho outro trabalho que é a coordenação de uma escola de vôlei com mais de 600 alunos em São Paulo. Eu não abro mão de planejar e estudar, isso faço todos os dias antes de ir para a quadra. 

O que você gosta de fazer no tempo livre? O que as pessoas costumam se surpreender ao descobrir sobre você fora da quadra?

No meu tempo livre gosto de cuidar da casa e também de estudar sobre esporte, gestão, liderança e tudo que envolve alta performance. 

Além disso, sempre que consigo, quero ver meus cachorros, que hoje moram com a minha filha, visitar meus pais, ficar com minha mulher, a Rosana, e também fazer churrasco. 

Algumas pessoas se surpreendem quando descobrem que gosto de cuidar da casa, fazer manutenção, marcenaria. Sou bem reservado, nem todos sabem disso. 

Como o vôlei entrou na sua vida? Ser técnico era um sonho ou foi uma descoberta ao longo do caminho?

O vôlei entrou na minha vida ainda na infância. Estudei em um colégio onde as equipes eram fortes e o professor era apaixonado pelo vôlei. No meio da minha vida escolar, fui transferido para outra escola, que também tinha equipe forte no vôlei, mas acabei retornando para a primeira escola depois. 

Sempre joguei vários esportes, mas o vôlei me encantava mais que qualquer outro. De início, queria ser atleta, mas com o passar do tempo percebi que o que eu queria mesmo era trabalhar com a modalidade de alguma forma. 

Por isso, fui preparador físico, estatístico, assistente técnico e somente depois me tornei técnico. 

Como foi sua trajetória até assumir a equipe adulta feminina do São Caetano? Houve algum episódio ou decisão que marcou sua formação como técnico e líder?

Trabalhei em escola, universidade e clubes. Tenho muito orgulho de dizer que trabalhei em todas as categorias do vôlei feminino: do Sub 12 ao Adulto. E consegui títulos expressivos em todas elas em torneios da federação Paulista. Às vezes pode soar como falta de humildade essa frase, mas a verdade é que não é um feito fácil. 

Iniciei a carreira no C.A. Ypiranga, onde me firmei como técnico mesmo. Depois, passei pelo Pinheiros por um breve período, sempre atuando com categorias de Base. Até que recebi uma proposta de um projeto que foi extinto, o ADC Bradesco. Lá iniciei no Sub 15 e fui crescendo até o Sub 21 e Adulto. E, paralelamente, passei pela Seleção Paulista por 6 temporadas.

Ao longo da minha carreira, vivi muitos episódios marcantes, mas especialmente um deles foi o que fez eu me tornar o que sou hoje: foi a decisão de pedir demissão do Pinheiros para poder ir para um projeto diferente, que era o ADC Bradesco, quando fui convidado. 

Abri mão de um de um bom salário como CLT para receber metade como PJ, investindo tempo e dinheiro em uma possibilidade de evoluir na carreira.  Isso me marcou bastante. 

Quando acabou o projeto do Bradesco, fiquei no mercado e aí o São Caetano me chamou. Fui para a Base e logo no final da temporada já me levaram como assistente do Adulto. No outro ano, veio o convite para assumir o time profissional. 

Como você define seu estilo de liderança? O que muda na sua abordagem de acordo com o perfil e o momento de cada atleta?

Acredito que tenho um perfil verdadeiro. Costumo falar para todos e todas que trabalham comigo que falo a verdade sempre. Aos poucos, fui entendendo que a liderança não é conquistada por meio de gritos ou cargos, mas sim com exemplos, ouvindo e entendendo a realidade de cada um. 

Identificar o perfil de cada atleta vem com estudos, entrevistas com antigos treinadores e tempo de convivência. Com isso, as abordagens são mais diretas e assertivas e aí consigo errar um pouco menos. 

Ouvir e identificar questões pessoais sem ser invasivo ajuda também. Acolher e dar oportunidade de falar geram mais conexão e, com isso, as atletas entendem que a cobrança e as atitudes dentro de quadra não são de âmbito pessoal e sim pertinentes ao comportamentos, resultados e momento. 

Como transformar pessoas com perfis e ambições diferentes em uma equipe que compartilha objetivos e responsabilidades? Que atitudes ajudam a construir essa cultura?

Acho que não tenho essa resposta exata e se você souber de alguém que tenha, me avise, que eu quero conversar! 

O que procuro é sempre deixar claro, desde cedo, quais são as metas e os objetivos. Nos primeiros dias de trabalho proponho pilares e tento desenvolver uma cultura vencedora na equipe que vai se fortalecendo ao longo da temporada. 

Como você mantém o grupo engajado quando os resultados não vêm? Pode contar uma situação em que precisou rever a estratégia ou recuperar a confiança da equipe?

No alto rendimento os resultados são importantes, é claro. Mas o que norteia nosso trabalho são as metas. Às vezes, temos vitórias que mascaram algumas questões. Outras vezes, temos derrotas que nos mostram o caminho correto.

Nesta temporada mesmo, em uma das derrotas, após apresentação teórica dos números do jogo, conseguimos identificar que coisas boas aconteceram e não foi tão desastroso quanto o resultado parecia. 

Isso faz com que consigamos “virar” para a página B de forma mais rápida. 

Na hora de montar um elenco, o que pesa mais: o talento individual, o potencial de desenvolvimento ou a capacidade de trabalhar em equipe? Como essa lógica pode se aplicar à contratação de profissionais em uma pequena empresa?

No momento da montagem da equipe, alinhado com orçamento e decisões junto a supervisão e diretoria, procuro atletas que se enquadrem no perfil que busco. Esse perfil envolve princípios como verdade, dedicação e comprometimento, para citar alguns. 

Com certeza, a capacidade de trabalhar em equipe vem na frente, pois o vôlei é o esporte mais coletivo de todos. O potencial de desenvolvimento e o talento são importantes, mas não adianta nada se não houver conexão com o grupo. 

Acredito que para uma pequena empresa deve ser parecido. Sem engajamento e conexão dificilmente dá certo. 

Quando uma estratégia não funciona, como você decide o que precisa mudar sem perder de vista o objetivo final? Pode dar um exemplo de uma decisão difícil que tomou e o que aprendeu com ela?

O vôlei é muito dinâmico. Estratégias são montadas para cada ponto, cada passagem de rede nossa e do adversário e em vários momentos da partida. Assim, adaptações e decisões são tomadas o tempo todo. A maioria em conjunto, mas algumas eu preciso tomar sozinho e assumir a responsabilidade.  

Certa vez tive que solicitar dispensa de uma jovem atleta de uma temporada para outra. Ela era muito boa, capitã da equipe, mas o perfil para a outra temporada era outro. Não foi nada fácil tomar essa decisão, mas hoje ela tem uma linda carreira nos Estados Unidos com vôlei. 

Aprendi que a decisão dura que tomei no momento fez com que ela se motivasse a buscar novos caminhos. Hoje levo isso dentro da profissão e para minha vida: existem decisões difíceis que precisam ser tomadas quando você está em uma posição de liderança. Nem sempre serão agradáveis, mas devem ser tomadas com convicção e responsabilidade. 

Como você equilibra a pressão por resultados imediatos com a construção de um projeto de longo prazo?

Isso é difícil na cultura esportiva que temos no País. O equilíbrio que busco vem de reuniões e conversas francas e realistas com os superiores antes do início das contratações na temporada. 

E também, mediante condições de montagem de elenco e estrutura, traçar planos verdadeiros e ambiciosos dentro da realidade. Temos sempre objetivos de pequeno, médio e longo prazo dentro de uma temporada e também dentro de 2, 3 anos.

Quais são os principais desafios para levar o São Caetano à Superliga A? O que precisa acontecer para alcançar esse objetivo?

Levar o Cora São Caetano para a Superliga A envolve desafios diários. Temos um elenco enxuto em termos de quantidade de atletas adultas e isso faz com que a margem para erro seja muito pequena. 

Estratégias e adaptações devem ser treinadas de forma exaustiva para que todas entendam que não podemos ficar dependendo do acaso. Para atingirmos esse objetivo é necessário muito planejamento, avaliação de metas, readequações e ajustes diários para que as atletas e a comissão técnica estejam alinhados e em sua melhor performance dentro dos jogos. Com isso temos possibilidades maiores de performar e buscar vitórias. 

Que estratégias vocês estão adotando para conquistar o acesso? Houve mudanças na montagem do elenco, na preparação ou na rotina de trabalho?

A estratégia principal é potencializar o que as atletas têm de melhor e, em cima disso, organizar a parte coletiva tornando a equipe sólida, consistente e regular.  Da última temporada para esta mudamos 50% do elenco buscando mais força e mais experiência.

A rotina de trabalho também mudou para buscar alta performance em todos os treinos.

O que o patrocínio da Cora representa para o projeto esportivo do São Caetano? Na prática, como esse apoio contribui para as condições de trabalho e os objetivos da equipe? 

A presença da Cora representa muito. O patrocínio de uma empresa séria e organizada mostra a confiança depositada no trabalho que está sendo desenvolvido. 

Na prática, com os recursos, conseguimos ofertar melhores condições de trabalho para atletas e CT, modernizar alguns equipamentos e contratar reforços fora da quadra para ampliar a comissão técnica de forma mais especializada.

Com isso, a distância para nossos adversários diminuiu e o objetivo principal fica muito mais tangível. 

Como você lida com expectativas diferentes entre diretoria, atletas e comissão técnica? O que um empreendedor pode aprender com isso?

Existem muitos pontos em comum mas, ao mesmo tempo, outros distintos. Lidar com tudo, por exemplo, é uma tarefa complexa e para conseguir eu busco conversar e ouvir todos os lados. E assim, tentar organizar as idéias e convencer todos que temos objetivos e metas coletivas que podem ajudar nas metas individuais. 

Acho que um empreendedor pode ver isso sob uma ótica empresarial dividindo a empresa por setores, mas sabendo que a visão macro deve ser sempre dele. O cuidado com cada setor, entendendo as pessoas que lá trabalham e ouvindo todos, acredito ser muito benéfico para a empresa como um todo. 

Se pudesse recomendar uma prática de gestão que um pequeno empreendedor começasse a aplicar amanhã para liderar melhor sua equipe, qual seria? Como ela funcionaria na prática?

Uma prática que eu recomendaria é realizar pequenas conversas informais com o grupo de colaboradores os aproximando da liderança. Muitas vezes, reuniões formais “travam” as pessoas por receio de exposição ou julgamentos. Na prática, acredito que isso faz com que o colaborador se sinta mais pertencente à empresa.

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