Falar sobre as finanças de uma igreja nem sempre é tarefa fácil. E profissionalizar o trabalho de contabilidade para igrejas também pode ser um grande desafio.

Entre dízimos, ofertas, a responsabilidade de manter a instituição funcionando e administrar os recursos que vêm da comunidade, como cuidar do dinheiro, do patrimônio e das obrigações contábeis e fiscais sem gerar conflitos, desconfiança ou abalar a fé?

“O maior equívoco é achar que, por ser imune, a igreja não precisa de contabilidade. Ou pior: achar que organizar as finanças é falta de fé”, afirma Evelyn Tasca, CEO da gTasca, escritório especializado em contabilidade para igrejas. “A Bíblia está cheia de exemplos de boa administração: José no Egito, Neemias na reconstrução, a parábola dos talentos.”

Para Evelyn, profissionalizar a gestão financeira das igrejas não é apenas uma questão de cumprir obrigações legais, mas também de fortalecer a confiança e permitir que as lideranças tomem decisões com mais segurança. “Conflito quase sempre nasce da falta de informação. Quando os números aparecem com organização, a desconfiança perde espaço”.

É por isso que, há quase três décadas, a gTasca ajuda igrejas a iniciar ou regularizar suas atividades. O trabalho inclui abertura de CNPJ, elaboração e revisão de estatutos e atas, organização de registros e documentos, rotinas contábeis e fiscais e gestão da folha de pagamento. O escritório também orienta as instituições na abertura de contas bancárias para pessoa jurídica e no cumprimento das obrigações necessárias à manutenção de sua regularidade.

Em entrevista exclusiva ao DNA Empreendedor, Evelyn explica por que a contabilidade deve ir além das obrigações fiscais, como a organização financeira pode prevenir conflitos e proteger o patrimônio das instituições e quais práticas de gestão podem ser adotadas por igrejas de todos os portes.

Confira a íntegra do bate papo!

DNA Empreendedor: Há quanto tempo você atua com contabilidade voltada para igrejas? Como surgiu seu interesse em se especializar nessa área?

Evelyn Tasca: Eu cresci dentro da contabilidade, literalmente. Sou filha de contador e de professora (e essa mistura não poderia dar errado, né?). Sou formada em Ciências Contábeis, tenho a formação Crown em finanças pela Universidade da Família e hoje estou estudando Teologia e Administração. 

A gTasca, nossa empresa familiar, completou 28 anos agora em outubro. Igreja sempre esteve na nossa carteira, mas por muito tempo fomos um escritório generalista. 

A especialização nasceu da fase mais difícil da nossa história, quando chegamos a uns 600 clientes. Meu irmão Murilo fez uma pergunta que doeu: “se temos tantos clientes, por que não estamos ricos?”. A resposta sincera foi: não sabemos. Revisamos tudo, ficamos com cerca de 90 clientes e decidimos nichar. 

As igrejas entraram nesse foco, e daí nasceu o Tesoureiro Digital (comunidade exclusiva para tirar dúvidas, encontrar materiais práticos e receber orientação de especialistas que entendem os desafios reais da administração, contabilidade e tesouraria das igrejas).

Nichar significa entender o tema que mais combina com a sua rotina, conhecimento e propósito. E tem um detalhe que eu amo: meus pais, que hoje são pastores, lideram o nosso departamento de intercessão e oram pelos nossos clientes e pelos CNPJs deles e por nosso time. Para mim, contabilidade para igreja é uma forma de servir. 

Quando começou a profissionalização da contabilidade nas igrejas brasileiras? Houve algum marco importante para esse movimento?

Foi um processo. Tivemos uma direção e a princípio não queríamos, mas fomos nos envolvendo, estudando, até que realmente resolvemos mergulhar nesse nicho. 

Começamos entre 2015 a 2018, ainda tímidos, e fomos ganhando mercado, visibilidade e reconhecimento por todo tempo investido de dedicação ao tema, nos tornando referência a nível Brasil

E tem alguns marcos que eu sempre cito. Em 2003, a Lei 10.825 reconheceu as organizações religiosas como um tipo próprio de pessoa jurídica no Código Civil, separado das associações. 

Em 2012, o Conselho Federal de Contabilidade aprovou a ITG 2002, a norma das entidades sem finalidade de lucros, que diz como registrar doação, trabalho voluntário e prestar contas. 

Depois veio a digitalização das obrigações (SPED, eSocial, DCTFWeb). E, agora, a Reforma Tributária, que coloca o assunto de novo na mesa: quem não tem contabilidade organizada vai ter dificuldade para comprovar os próprios direitos e entendemos que a nossa maior missão é servir as nossas igrejas, pastores e colegas contadores e parceiros.

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Por que é importante profissionalizar a contabilidade das igrejas? Quais são os riscos de uma gestão financeira informal?

Porque a igreja administra recursos que foram confiados a ela e confiança se sustenta com transparência e responsabilidade. Profissionalizar é honrar quem contribui. 

Eu aprendi isso na pele: nosso escritório já teve muito cliente e pouca clareza. Crescer em quantidade não é crescer com saúde e, na igreja, é igualzinho: arrecadar mais não quer dizer estar organizada. 

Na gestão informal, os riscos são bem concretos: perder a imunidade tributária por não conseguir comprovar onde o dinheiro foi aplicado, levar multa por obrigação entregue sem o movimento real, ter passivo trabalhista e desvio que ninguém percebe a tempo e, o pior de todos, a desconfiança dentro da comunidade e fora. 

Quais são as principais responsabilidades financeiras dos dirigentes e como evitar problemas legais e conflitos internos?

Os dirigentes respondem pela boa aplicação dos recursos, pelo cumprimento das obrigações fiscais e trabalhistas e pela prestação de contas à assembleia, do jeito que o estatuto manda. 

Para evitar problema, eu sempre volto ao básico bem feito: estatuto atualizado e seguido, decisões registradas em ata, conselho fiscal que funciona de verdade (e não só no papel), finanças devidamente organizadas e contador habilitado para prestação de contas regular e clara, que chamamos de testemunho ao Fisco e às demais pessoas envolvidas na instituição. 

Conflito quase sempre nasce da falta de informação. Quando os números aparecem com organização, a desconfiança perde espaço.

Por que é fundamental separar as finanças e o patrimônio da igreja dos recursos pessoais de pastores e dirigentes?

Porque a igreja tem CNPJ próprio, e o dinheiro dela não é de ninguém individualmente. Misturar as contas compromete a imunidade, pode parecer distribuição indevida de recursos e deixa o pastor exposto a acusações, mesmo quando ele está agindo de boa-fé. 

O pastor recebe a prebenda, remuneração de forma formal e documentada, e as despesas pessoais saem do bolso dele. Imóvel e veículo da igreja ficam no nome da igreja e entram no patrimônio. Eu costumo dizer: separar não é desconfiar do pastor, é proteger o pastor e  proteger a igreja junto.

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Quais são os cuidados necessários para registrar dízimos, ofertas e doações, organizar comprovantes e contratos e controlar pagamentos, inclusive de funcionários e prestadores? Quais cuidados são importantes com movimentações em dinheiro?

A regra é simples: tudo que entra e sai precisa de um documento. Nas entradas, dízimo e oferta são contados por pelo menos duas pessoas, registrados num termo assinado e depositados inteirinhos na conta da igreja. 

Nada de usar o dinheiro do gazofilácio (cofre) para pagar uma conta no caminho. E oferta com finalidade específica, como missões ou reforma, é registrada separada, porque precisa ser usada no que foi prometido. 

Nas saídas: nota fiscal ou recibo para cada pagamento, contrato por escrito com prestador, empregado registrado e encargos em dia. E quanto ao dinheiro vivo, quanto menos circular, melhor. Pix e boleto deixam rastro, e isso protege a igreja e o tesoureiro.

Como o orçamento e a prestação de contas ajudam a igreja a planejar suas atividades e dar transparência ao uso dos recursos?

O orçamento transforma visão em plano, a liderança decide o que quer viver no ano (missões, ação social, reforma, eventos) e quanto cada coisa custa. Sem orçamento, a igreja vive apagando incêndio. 

A prestação de contas fecha o ciclo: mostra pra membresia o que entrou, onde foi aplicado e o que ficou pro próximo período. Eu recomendo apresentar ao conselho fiscal todo mês e à assembleia pelo menos uma vez por ano. 

E aqui fala a professora de comunicação que mora em mim: relatório bom é relatório que qualquer membro entende. Se só o contador entende, a gente falou, mas não comunicou. Comunicar é diferente de falar.

Quais são as principais obrigações contábeis e fiscais das igrejas? A imunidade tributária dispensa a instituição de manter uma contabilidade organizada?

Não dispensa, de jeito nenhum. Esse é um dos mitos mais perigosos que eu encontro. A imunidade da Constituição vale para impostos sobre patrimônio, renda e serviços ligados às finalidades essenciais da igreja, mas não acaba com as obrigações. 

O CFC é claro: entidade sem fins lucrativos, de qualquer tamanho, precisa manter contabilidade regular. Na prática, a igreja precisa de escrituração contábil e demonstrações anuais conforme a ITG 2002, entregar a ECF todo ano e a ECD quando as receitas e doações do ano chegam a R$ 4,8 milhões. Se tem empregado, prebenda ou contrata serviço, ainda entram eSocial, EFD-Reinf e DCTFWeb, com INSS, FGTS e PIS sobre a folha. 

Eu sempre falo: imunidade é um direito, direito precisa ser comprovado, e quem comprova é a contabilidade.

Como uma igreja pequena, de bairro, pode profissionalizar sua gestão financeira sem precisar de uma grande estrutura administrativa?

Começando pelo básico bem feito. Quatro passos já mudam tudo: CNPJ e estatuto regularizados; uma conta PJ só da igreja, por onde passa todo o dinheiro; um tesoureiro e um conferente, para ninguém cuidar das finanças sozinho. Uma conta Cora sem taxas ajuda nesse caminho e pode ter o Tesoureiro Digital e um contador que entenda de igreja. 

Não é sobre tamanho, é sobre disciplina. E foi justamente pensando na igreja que não tem estrutura administrativa que a gente criou o Tesoureiro Digital: gestão financeira, processo e orientação para quem precisa de clareza para decidir.

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Pessoa usando Tap to Pay da Cora pelo celular

Como funciona a contabilidade de grandes igrejas, com unidades em diferentes cidades e estados? Quais são os principais desafios de controle e prestação de contas?

Igreja grande normalmente tem uma sede e filiais, cada uma com CNPJ próprio vinculado à matriz, e a contabilidade consolida tudo. Os desafios? Padronizar o jeito de fazer em unidades com realidades bem diferentes, fazer cada filial mandar a documentação no prazo, lidar com regras municipais diferentes (como bombeiro, alvará, etc) e manter a folha correta. 

O que resolve é ter processos claros e alinhados, sistemas integrados e auditoria interna periódica e muita tecnologia e contar com quem já faz isso há anos e atende todo o Brasil como a gTasca e o Tesoureiro Digital. Ou seja: processo e organização. A “chata do sistema” que mora em mim fica feliz quando vê isso funcionando.

Quais práticas de gestão das grandes igrejas poderiam ser adaptadas às instituições menores?

Quatro práticas cabem em qualquer tamanho de igreja: financeiro organizado com a conta Cora, que é a melhor conta para igrejas, orçamento anual aprovado pela liderança; alçadas de aprovação, ou seja, até quanto cada pessoa pode autorizar sozinha; e um calendário fixo de prestação de contas. 

A igreja pequena também pode ter o seu conselho fiscal com dois ou três membros da igreja de confiança. Isso é governança que custa pouco e protege muito.

Como a organização contábil contribui para a continuidade da gestão durante a troca de pastores, dirigentes ou tesoureiros?

Quando a informação mora na cabeça de uma pessoa só, a saída dela vira crise. Quando mora na contabilidade, a transição é tranquila. 

Com documentos em dia, contratos arquivados, senhas e acessos em nome da instituição e um relatório de passagem de cargo, quem chega sabe exatamente o que está recebendo: saldo, dívida, compromisso e patrimônio. 

Eu sempre recomendo um balanço de transição assinado por quem sai e por quem entra. E falo isso como quem cresceu numa empresa familiar: organização é o que deixa a próxima geração continuar a história.

Como a tecnologia pode facilitar a organização financeira das igrejas e reduzir tarefas manuais?

Uma lição que eu aprendi na nossa reconstrução: tecnologia não pode ser decoração. Digitalizar sem revisar o processo só transforma a burocracia de papel em burocracia digital. 

Na igreja, a tecnologia certa faz o Pix da oferta cair já identificado, o extrato chegar no contador sem ninguém digitar nada, os pagamentos serem agendados e os comprovantes ficarem guardados. 

A ideia é tornar digital tudo o que pode ser digital, para sobrar tempo para o que precisa continuar humano: cuidar de gente.

Como contas PJ, cartões, controles de acesso e limites de aprovação ajudam a organizar as finanças e dar mais segurança às movimentações?

A conta PJ garante que o dinheiro da igreja fique no nome da igreja. O cartão PJ substitui aquele adiantamento em dinheiro e mostra exatamente onde cada real foi gasto. 

O controle de acesso deixa cada pessoa ver e fazer só o que é da função dela: o tesoureiro movimenta, o conselho fiscal consulta, o contador baixa o extrato. E o limite de aprovação evita que uma decisão grande fique nas mãos de uma pessoa só. É governança dentro da ferramenta, e isso traz paz para todo mundo.

Como a Conta PJ da Cora pode ajudar as igrejas a profissionalizar sua gestão financeira?

Aqui eu falo como quem usa, tá? Desde agosto de 2022 a Cora faz parte da nossa operação: abrimos a conta, criamos um perfil de usuário para nosso BPO financeiro, o Tesoureiro Digital, e integramos com a nossa plataforma.

Para a igreja, ela resolve uma dor muito comum, que é o custo. Muita igreja usava a conta pessoal do pastor porque a conta PJ pesava no orçamento. Na Cora, a conta PJ não tem tarifa de manutenção, o Pix e os boletos são sem custo e o cartão PJ não tem anuidade. Também dá para ter vários usuários com permissões diferentes, inclusive um perfil pro contador. 

Mas o maior aprendizado que eu tive foi este: indicação sem acompanhamento é só indicação. A conta faz diferença de verdade quando entra num processo em que conta, organização financeira, contabilidade e orientação conversam entre si.

Qual é o principal equívoco das lideranças religiosas sobre contabilidade? O que dizer a quem considera essa profissionalização cara ou desnecessária?

O maior equívoco é achar que, por ser imune, a igreja não precisa de contabilidade. Ou pior: achar que organizar as finanças é falta de fé. Gente, a Bíblia está cheia de boa administração: José no Egito, Neemias na reconstrução, a parábola dos talentos! 

Para quem acha caro, eu conto a minha história. Nossa empresa já chegou a operar abaixo de zero: perdemos o maior cliente, de uns R$ 25 mil por mês, e esse era um valor expressivo na época. Veio a crise e nós, sócios, ficamos sete meses sem retirada. Sim, a educadora financeira também passou aperto! A saída foi fazer o oposto do desespero: organizar. 

Em 2019, crescemos assustadoramente com menos cliente, mais organização, recursos mais abundantes e missão de vida alinhada no propósito e serviço. Organização não é luxo de quem está bem; muitas vezes é ela que tira você do buraco. Profissionalizar é investimento, não despesa. 

Como você avalia o movimento de igrejas que criam bancos ou oferecem cartões e outros serviços financeiros? Quais cuidados de gestão e governança são necessários nesses casos?

Eu vejo com cautela. A intenção pode ser linda (incluir a comunidade financeiramente, gerar recurso para a obra), mas é uma atividade de outra natureza, com riscos que a igreja não está acostumada a gerir. 

O cuidado principal é separar: a operação financeira precisa ficar numa estrutura jurídica própria, com gestão profissional, parceiro autorizado pelo Banco Central, auditoria independente e regras claras sobre como qualquer receita chega à igreja. 

Misturar isso com a organização religiosa coloca em risco a imunidade e, principalmente, a missão, podendo comprometer o testemunho e o legado.

Quais questões contábeis, jurídicas e regulatórias essas iniciativas precisam observar?

No regulatório, quem oferece conta, cartão ou crédito precisa de autorização do Banco Central ou tem que operar por meio de uma instituição autorizada. Já produto de investimento passa pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários). 

No jurídico, entram o Código de Defesa do Consumidor, a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), para o tratamento de dados dos membros, e as regras de prevenção à lavagem de dinheiro. 

No contábil e tributário, é preciso saber que a receita de atividade econômica não fica automaticamente coberta pela imunidade: ela tem que ser separada e tributada do jeito certo. 

Portanto, antes de lançar qualquer coisa assim, eu recomendo reunir um contador, advogado e especialista regulatório na mesma mesa. Mas, ainda assim, não recomendo essa atividade vinculada às igrejas.

Como evitar que os membros confundam a confiança na instituição religiosa com uma garantia sobre os produtos financeiros oferecidos?

Com comunicação transparente e separação clara. Como professora de comunicação, eu insisto nisso: o produto precisa ter marca e instituição responsável bem identificadas, contrato que explique riscos, taxas e quem responde por eles, e nunca ser apresentado do púlpito como se fosse parte da fé. 

Aderir é uma escolha, não um sinal de compromisso espiritual. A liderança tem a responsabilidade pastoral de proteger o membro, inclusive da própria empolgação.

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