Empreendedorismo feminino: os desafios e conquistas das donas de negócios

19 de Novembro de 2020
empreendedorismo feminino

Relatório do Sebrae mostra que a mulher conquistou espaço de destaque no universo empreendedor, mas ainda enfrenta desafios, como a restrição ao crédito

Há anos, as mulheres vêm lutando para garantir uma condição e posição mais igualitária na sociedade e muito já foi conquistado nesse sentido. Um exemplo disso é o constante crescimento do empreendedorismo feminino, que mudou o mercado de novos negócios e promete avançar ainda mais nos próximos anos.

No entanto, ainda estamos longe de viver em um mundo ideal no que diz respeito à equidade de gênero e isso fica bastante claro quando olhamos os números do setor.  

Panorama do empreendedorismo feminino no Brasil

De acordo com a pesquisa Empreendedorismo Feminino no Brasil, publicada em 2019 pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) em parceria com o GEM (Global Entrepreneurship Monitor), o Brasil tem mais de 24 milhões de mulheres empreendedoras.

Além disso, o Brasil tem a 7ª maior proporção global de mulheres em novos negócios. Por outro lado, o rendimento médio mensal da empreendedora brasileira é 22% menor em comparação com os empreendedores homens, embora elas possuam um nível de escolaridade 16% superior.

O estudo constatou ainda que 44% delas empreendem por necessidade, com o objetivo de superar o desemprego ou aumentar a renda, por exemplo. Uma média de 40% delas também empreendem sem ter uma experiência anterior no setor.

Nos últimos dois anos, o número de mulheres que se tornaram a principal fonte de renda em casa também subiu de 38% para 45%, superando o percentual de mulheres na condição de cônjuge (situação verificada quando a principal renda familiar provém do marido).

Os dados reforçam o interesse cada vez maior das mulheres pelo empreendedorismo. No entanto, as motivações são diferentes que as do homem que deseja abrir o próprio negócio.

“Milhares de mulheres brasileiras abriram um negócio não porque tiveram uma ideia genial ou porque sonhavam com isso, mas porque precisaram começar a vender doces ou fazer o cabelo da vizinha para ganhar dinheiro e sustentar a si e a família”, complementa Vivianne Vilela, diretora de conteúdo no E-commerce Brasil, que atuou por mais de 7 anos em projetos do Sebrae de orientação empresarial para micros e pequenos negócios.

Os desafios que mulheres empreendedoras ainda enfrentam

Durante muito tempo, acreditou-se que as realizações das mulheres se limitavam à gestão do lar e maternidade. Felizmente, elas têm conquistado espaço em áreas acadêmicas, na política, na ciência, na tecnologia, em cargos de liderança e, também, tocando seus próprios negócios.

Empreender, no entanto, nem sempre é um caminho fácil. E para as mulheres, a jornada pode ser ainda mais difícil. Enquanto no mundo corporativo o preconceito é tido como um dos grandes motivadores da diferença salarial, para as empreendedoras o rendimento inferior pode estar relacionado à impossibilidade de dedicação integral ao negócio. É que muitas delas precisam se desdobrar para administrar as atividades da empresa e os cuidados com a casa e com os filhos, por exemplo.

Vivianne explica que o estágio inicial de um negócio requer ainda mais dedicação do empreendedor. “Envolve acumular diferentes funções e estar disponível o tempo todo. Quando se trata das mulheres, a tendência é que  a jornada seja (no mínimo) dupla. Afinal, muitas ainda acumulam funções dos seus lares e não recebem o mesmo estímulo que os homens para ter seu próprio negócio”, esclarece.

“Cuidar dos filhos, de familiares idosos e dos afazeres domésticos não são obrigações exclusivas das mulheres – mas, como sabemos, ainda é comum que elas sejam mais sobrecarregadas por elas do que os homens. Não à toa, uma pesquisa realizada pela Rede Mulher Empreendedora mostrou que 70% delas abrem um negócio em busca de flexibilidade. Porém, equilibrar os compromissos familiares com os do negócio ainda é um desafio”, complementa Vivianne.

A busca por crédito e investimento

Em um ambiente de negócios – que, precisamos admitir, é majoritariamente masculino -, a imagem do sucesso está, muitas vezes, ligada à figura de força e autoridade do homem. Por isso, a mulher se depara com muitos obstáculos para conseguir empreender, ser levada a sério e ser reconhecida.

Vivianne explica que não é diferente quando a empreendedora busca por opções de crédito e investimento. “De acordo com o Sebrae, as mulheres têm um nível de inadimplência ligeiramente mais baixo do que os homens (3,7% contra 4,2%). Apesar disso, elas tendem a ter mais dificuldade de acessar crédito para os seus negócios. Em média, também pagam taxas anuais de juros 3,5% maiores do que os homens”, enfatiza.

“De forma geral, dois fatores influenciam nesse cenário. Um deles é a postura de muitos gerentes de bancos diante de negócios comandados por mulheres. Em muitos casos, também falta experiência ou segurança na hora de negociar empréstimos. E isso tem a ver inclusive com o quanto esta mulher teve acesso a uma educação financeira desde a sua adolescência, para entender o que significa os juros, taxas e obrigações”.

Por outro lado, Vivianne acrescenta que existem muitos exemplos de mulheres criando negócios por oportunidade, com capacidade de investirem em tecnologia, algumas porque quiseram mudar a rota de vida e partiram para um negócio próprio para terem melhor controle sobre o próprio tempo e de uma qualidade de vida solteira ou em família, melhor. “A definição de sucesso vem sendo revista com outros olhares que vale a pena conhecer e acompanhar de perto”, aconselha.

“Aproveitando, para quem está lendo: que produtos você tem comprado feito por outras mulheres? O consumo para incentivar e potencializar o empreendedorismo feminino também é fundamental nesta jornada de mudanças e empoderamento do feminino pelo mundo. Compre do pequeno, compre de uma mulher que faz”.

Acesso ao conhecimento é um caminho para fortalecer o empreendedorismo feminino

O empreendedorismo feminino surge, então, como forma de enfrentamento ao empreendedorismo tradicional, que é conduzido e pensado por homens de acordo com suas próprias regras e conceitos de sucesso.

Ao impulsionar uma forma diferente de pensar os negócios, as mulheres conquistam protagonismo e mais espaço, bem como reconhecimento e satisfação na vida pessoal e profissional, o que também garante sua independência financeira.

Nesse cenário, é importante que a mulher empreendedora busque apoio umas com as outras, para compartilhar experiências e conhecimento. A Rede Mulher Empreendedora é um excelente exemplo de iniciativa para fortalecer o empreendedorismo feminino. 

Vivianne reforça que, segundo as pesquisas do Sebrae, ao longo de mais de uma década as empresas quebram com 02 ou 05 anos, por falta de conhecimentos aplicados de: planejamento, gestão, gestão financeira, conhecimento sobre o universo fiscal-tributário de cada atividade econômica, conhecimento sobre as tecnologias que podem ser utilizadas em cada etapa para gerir o negócio e estratégias de vendas. “A diferença está no acesso ao conhecimento que, se aplicado, gera transformações e incrementa o faturamento através de vendas mais efetivas e rentáveis “enfatiza.

“Empreender, além de significar muito trabalho, poucos dias de férias, algumas noites sem dormir, alguns finais de semana ou feriados no trabalho, é também um sinônimo de muito estudo, sempre, para criar novos produtos e serviços, repensar as experiências de compra e relacionamento com os clientes. Só assim a empresa será relevante, no dia-a-dia de cada consumidor”, conclui.

Como vimos existe um cenário animador de maior participação feminina no universo empreendedor, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido para que as mulheres tenham o seu potencial valorizado.

Até hoje, a mulher precisa lutar para mostrar à sociedade que “seu lugar” é onde ela quiser, inclusive à frente de seu próprio negócio e que características biológicas não definem ou limitam sua competência e capacidade.

Conta PJ Cora

Por Vanessa Ferreira