Fluxo de caixa: empresas fecham 2025 com R$ 213 bi em dívidas; veja como sair do vermelho
Especialistas apontam caminhos para pequenas e médias empresas reorganizarem o caixa, reduzirem o risco de inadimplência e fecharem 2026 com mais equilíbrio financeiro
Manter o fluxo de caixa saudável tem sido um desafio, sobretudo para micro e pequenas empresas (MPEs) no Brasil. Dados da Serasa Experian, divulgados em abril de 2026, mostram que o país encerrou 2025 com recorde de inadimplência empresarial.
Segundo o Indicador de Inadimplência das Empresas, o ano terminou com 8,9 milhões de empresas inadimplentes, com dívidas atrasadas que somavam a quantia de R$ 213 bilhões.
“Na comparação com o mesmo mês de 2024, quando o país registrou 6,9 milhões de CNPJs inadimplentes, o aumento foi de aproximadamente 2 milhões de empresas no vermelho”, informou a Serasa Experian.
Nesta reportagem do DNA Empreendedor, reunimos os principais dados da pesquisa e orientações de especialistas para ajudar pequenos e médios negócios a reorganizar o caixa e chegar ao fim de 2026 em uma situação mais equilibrada.
Micro e pequenas empresas lideram a inadimplência no Brasil?
A pesquisa mostra que os pequenos negócios concentravam a maior parte dos casos em dezembro de 2025: das 8,9 milhões de companhias inadimplentes, 8,5 milhões eram micro e pequenas empresas (MPEs), o equivalente a 95,5% do total.
Ao todo, o valor das dívidas em atraso desse grupo chegou a R$ 185,4 bilhões, com média de 6,7 contas negativadas por empresa.
Segundo a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, no material de divulgação da pesquisa, a principal explicação para esse dado está no fato de que as MPEs costumam ter menos acesso a linhas de crédito, dependendo mais de recursos de curto prazo.
“Em um cenário de juros elevados e maior seletividade na concessão, a capacidade de renegociação e de alongamento das dívidas fica reduzida, o que ajuda a explicar a concentração da inadimplência nesse grupo.”
Qual é o perfil das empresas inadimplentes no Brasil?
Além de serem majoritariamente empresas de pequeno porte, a pesquisa também mostra que esses negócios inadimplentes no Brasil estão principalmente no setor de Serviços (55,2%). Veja o detalhamento na tabela:
| Inadimplência – por setor das empresas | |
| Setor | % em dezembro de 2025 |
| Serviços | 55,2 |
| Comércio | 32,7 |
| Indústria | 8,1 |
| Outros (contempla Financeiro e Terceiro Setor) | 3,1 |
| Primário | 0,9 |
Já a análise da origem das dívidas mostra para quais segmentos esses valores estavam em atraso. A maior parte das pendências era com empresas de serviços (31,5%), seguida por bancos e cartões (19,3%), outros (18,1%), cooperativas (8,4%), utilities, como água, luz e gás (7,3%), telefonia (6,1%), financeiras (4%), varejo (3,4%) e securitizadoras (1,8%).
Em média, cada empresa inadimplente possuía 7 contas negativadas no mês pesquisado. A dívida média por CNPJ chegou a R$ 23.818,30. Vale dizer que esse valor é 10% maior que o registrado um ano antes pela Serasa (R$ 21.678,10).
Esse aumento do valor médio das dívidas evidencia uma maior pressão sobre o fluxo de caixa, especialmente para negócios com menos acesso a crédito estruturado.
Quais regiões concentram mais empresas inadimplentes no Brasil?
Mais da metade (53,8%) das empresas inadimplentes detectadas na pesquisa se concentram na região Sudeste do país. Veja na tabela a seguir:
| Localização das empresas inadimplentes | |
| Região | Quantidade em dezembro de 2025 |
| Sudeste | 4,81 milhões |
| Sul | 1,45 milhão |
| Nordeste | 1,37 milhão |
| Centro-Oeste | 784 mil |
| Norte | 535 mil |
Ao considerar os estados, estes são os cinco com maior número de CNPJs negativados no período apurado: São Paulo (2,9 milhões de empresas), Minas Gerais (847 mil), Rio de Janeiro (839 mil), Paraná (563 mil) e Rio Grande do Sul (492 mil).
Por que tantas empresas perderam o controle do fluxo de caixa?
A falta de gestão financeira é o principal motivo para que as empresas caiam na inadimplência, na avaliação do PhD em Educação Financeira Reinaldo Domingos, que é presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (Abefin):
“Muitos empresários concentram seus esforços em vender mais e manter a operação funcionando, mas deixam de acompanhar com profundidade o fluxo de caixa, os custos e a real capacidade de pagamento da empresa. Com isso, os problemas só são percebidos quando a situação já está bastante comprometida.”
Já a CEO da Economia Diária, Veridiana Lopes, que também é presidente do Comitê dos Profissionais de Finanças Pessoais da Abefin, observa que os problemas costumam se agravar na época do ano que aparece na pesquisa da Serasa, ou seja, entre dezembro e janeiro:
“No final e no começo de ano existem alguns pontos que sempre se repetem, mas a maioria das empresas não se prepara, principalmente as pequenas e médias empresas. É o caso de benefícios que obrigatoriamente precisam ser pagos [aos funcionários], como o décimo terceiro salário. Isso gera uma baixa de caixa na maioria das empresas. Por mais que sejam gastos que sempre se repetem, a maioria não se prepara com antecedência e, quando precisam pagar, acabam se endividando.”
Domingos também lembra que, diante da dificuldade, muitos empreendedores recorrem ao crédito como solução imediata — o que nem sempre é uma boa ideia.
“O empréstimo PJ pode até aliviar momentaneamente, mas, se não houver um planejamento estruturado, ele acaba agravando o endividamento e comprometendo ainda mais a saúde financeira do negócio”, afirma.
Por que as micro e pequenas empresas são as mais vulneráveis?
As MPEs são mais vulneráveis, na visão de Domingos, porque, em muitos casos, ainda não possuem processos de controle e planejamento bem definidos.
Veridiana também observa que, no caso de empresas de pequeno porte, muitas vezes as contas pessoais do dono ou da família proprietária se confundem com as contas da pessoa jurídica, o que gera impacto direto no fluxo de caixa. Isso costuma piorar no fim do ano, com gastos mais altos com matrículas, Natal e impostos.
“Por isso é muito importante separar as contas PF das contas PJ, porque, do contrário, qualquer problema na vida pessoal vira problema na empresa”, alerta.
Quais sinais no fluxo de caixa indicam risco de inadimplência em uma empresa?
O principal sinal de alerta ocorre quando o fluxo de caixa da empresa fica muito tomado por dívidas. Esta é a avaliação de Veridiana Lopes:
“OK, todos têm dívidas, mas é um endividamento saudável? Ele impede a empresa de fazer outros investimentos? O caixa está muito apertado? Está no zero a zero? Está dando prejuízo no mês? O principal é esse olhar sobre o fluxo de caixa muito apertado, que leva qualquer imprevisto a virar mais uma dívida.”
Reinaldo Domingos diz que existem vários sinais que mostram que a empresa está caminhando para uma situação de inadimplência, mas destaca os três que considera mais importantes:
- Falta de clareza sobre quanto realmente sobra no caixa ao final do mês: “Quando o empresário não sabe exatamente quais são suas receitas, custos e despesas, ele perde a capacidade de tomar decisões estratégicas”.
- Necessidade frequente de recorrer a empréstimo empresarial para pagar contas do dia a dia, como fornecedores, salários ou tributos: “Isso demonstra que a operação não está se sustentando com recursos próprios”.
- Quando a empresa deixa de formar reservas financeiras para lidar com imprevistos ou oportunidades: “Todo negócio está sujeito a oscilações, e sem uma reserva qualquer dificuldade pode se transformar em crise”.
O presidente da Abefin resume:
“Por isso, defendo os 3 Rs do Negócio Sustentável: rentabilidade, recorrência e reserva. A empresa precisa gerar lucro, manter faturamento constante e construir uma reserva financeira capaz de garantir sua continuidade.”
Como sair da inadimplência e reorganizar o fluxo de caixa?
São três os principais passos para uma empresa sair da situação de inadimplência, listados pela CEO da Economia Diária:
- garantir que a receita consiga pagar todas as contas do negócio;
- garantir que haja margem em cima desse valor;
- e, por fim, construir um planejamento financeiro empresarial que permita que a empresa tenha clareza de seus gastos e possa fazer uma projeção pelo menos até o final do ano.
Ela recomenda que pessoas empreendedoras contem com uma assessoria financeira para apoiar esse processo. Segundo a especialista, o serviço de contabilidade, embora importante, não costuma ser suficiente para essa necessidade, pois tem foco maior na parte fiscal.
- Leia também | Empréstimo para crescer? Como saber se chegou a hora de dar o próximo passo na empresa
Checklist para sair da inadimplência empresarial
Domingos diz que o primeiro passo deve ser a identificação da origem do problema, seguida de um diagnóstico financeiro completo, que pode levar ao corte de custos.
“O mais importante é que o empresário assuma o protagonismo da decisão. Empreender é decidir e agir com estratégia. Com organização e disciplina, é possível reverter situações difíceis e reconstruir a saúde financeira do negócio.”
Veja, a seguir, o passo a passo que ele criou para orientar pequenos e médios empreendedores:
- Identificar a origem das dívidas: verificar como e em que momento o endividamento começou. Entender quais decisões ou fatores contribuíram para a falta de recursos.
- Levantar todas as dívidas: relacionar débitos vencidos e a vencer. Registrar credor, valor, vencimento, juros, multas e garantias contratuais.
- Fazer um diagnóstico financeiro completo: mapear receitas, custos, despesas e fluxo de caixa. Confirmar se a empresa está gerando lucro ou operando no prejuízo.
- Avaliar a capacidade real de pagamento: verificar se os lucros futuros serão suficientes para quitar as dívidas. Definir quanto pode ser destinado mensalmente à amortização.
- Reduzir desperdícios e custos improdutivos: cortar despesas que não contribuem para o resultado do negócio. Revisar contratos e renegociar condições com fornecedores.
- Buscar aumento de faturamento: intensificar ações comerciais. Criar estratégias para fidelização de clientes e aumento do ticket médio.
- Priorizar o pagamento das dívidas: a ordem deve ser a seguinte: dívidas de menor valor com alto risco ou alto custo financeiro; dívidas de maior valor com alto risco ou alto custo financeiro; dívidas de menor valor com baixo risco ou baixo custo financeiro; dívidas de maior valor com baixo risco ou baixo custo financeiro.
- Negociar com credores: buscar prazos maiores e redução de juros e multas. Formalizar os acordos para garantir segurança jurídica.
- Criar uma reserva financeira: destinar parte dos resultados para formar um fundo de proteção. Preparar a empresa para enfrentar imprevistos e aproveitar oportunidades.
- Aplicar os 3 Rs do Negócio Sustentável: rentabilidade (gerar lucro consistente); recorrência (manter faturamento contínuo) e reserva (construir segurança financeira).
- Monitorar continuamente os resultados: acompanhar indicadores financeiros. Ajustar o planejamento sempre que necessário.
- Repensar o modelo de negócio, se necessário: rever estratégias, produtos e posicionamento. Em casos extremos, avaliar mudanças estruturais ou até o encerramento das atividades de forma planejada.
O que pequenos e médios negócios podem fazer para reorganizar o fluxo de caixa em 2026?
A primeira medida para reorganizar o fluxo de caixa deve ser a adoção da educação financeira como parte da rotina empresarial, diz Domingos.
“Isso significa acompanhar o fluxo de caixa diariamente, conhecer em detalhes todos os custos e receitas e manter um planejamento financeiro atualizado para os próximos meses e anos.”
Para ele, o empresário que age preventivamente tem muito mais chances de manter o equilíbrio do caixa e crescer de forma sustentável. “E, quando percebe que o modelo de negócio não está gerando resultados, precisa ter coragem para repensar estratégias e, se necessário, redefinir completamente os rumos da empresa”.
Além disso, o especialista recomenda que as empresas revisem despesas, eliminem desperdícios, renegociem contratos, acompanhem indicadores e separem claramente as finanças empresariais das finanças pessoais dos sócios.
A questão da revisão de custos também é apontada com destaque pela especialista Veridiana Lopes. Segundo ela, mesmo custos administrativos com aluguel, internet e condomínio podem ser revisados.
Em sua experiência, ela identificou vários casos de empreendedores que pagavam por ferramentas que poderiam ser facilmente cortadas, ou por fornecedores cujos preços poderiam ser negociados.
Outro fator que pode pesar muito são os custos bancários. “Já atendi um cliente que perdia 20% do faturamento só com a tarifa bancária. Ao trocar de banco, já aliviou o caixa dele na hora”, conta.
Ela também recomenda que seja feita uma realocação de recursos dentro da empresa e reforça a importância do planejamento financeiro e da capacidade de projetar os gastos do negócio pelo menos até o final do ano.
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