Aos 17 anos, eu comecei a trabalhar como radialista. Não tinha experiência, era tímida e, para falar a verdade, caí de paraquedas naquela oportunidade, por convite de um amigo. Depois, trabalhei em diferentes áreas, tive um restaurante e fui descobrindo, na prática, que podia experimentar caminhos profissionais que nem sempre estavam nos meus planos iniciais.

Mas eu já tinha uma vontade muito clara: queria ser psicóloga e construir uma vida em que o trabalho não me impedisse de fazer as coisas que eu gostava. Sempre gostei de viajar e nunca me identifiquei muito com o trabalho presencial. Eu pensava: preciso conciliar minha vida para conseguir viajar.

Me formei em Psicologia em 2019 – a colação de grau foi no começo de 2020 – e, na semana seguinte de pegar o diploma, começou a pandemia. O mercado de trabalho parou e eu me vi diante de um cenário para o qual não tinha como me preparar completamente. Já trabalhava na área da saúde, mas não conseguia começar a atuar como psicóloga da maneira que imaginava. Em vez de ficar parada, fui atrás de formação, participei de um plantão psicológico de uma universidade federal para aprender a atender on-line e continuei estudando.

Sempre fui muito curiosa. Queria ter bagagem teórica e experiência prática, então investi bastante na minha formação. Cheguei a fazer duas pós-graduações diferentes em um mesmo ano, conciliando os estudos com o trabalho. Hoje, tenho cerca de seis ou sete especializações. Naquela época, eu pensava que precisava estudar o máximo possível para que ninguém pudesse dizer que me faltavam experiência ou conhecimento.

Minha trajetória na saúde passou pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Trabalhei por três anos em um ambulatório e depois atuei em hospital e como musicoterapeuta no CAPS Centro de Atenção Psicossocial). Ao mesmo tempo, comecei a atender on-line. Durante um período, conciliava o trabalho presencial durante o dia com os atendimentos virtuais à noite. Eu trabalhava muito, não tinha tempo para mim e comecei a perceber que não estava bem.

Cheguei a atender cerca de 70 pessoas por semana. Era bastante desgastante, e meu corpo começou a dar sinais de que aquele ritmo não estava funcionando. Em uma sessão, senti tontura e achei que fosse desmaiar. Como psicóloga, percebi que aquilo não estava normal e que poderia ser uma crise de ansiedade.

Foi um divisor de águas. Eu precisava fazer uma escolha: continuar conciliando tudo ou arriscar uma mudança. Decidi deixar o trabalho presencial e apostar na psicologia clínica on-line, mesmo sabendo que, naquele momento, os ganhos poderiam ser baixos e que eu ainda estava no início da carreira.

Não foi uma decisão sem medo. Empreender significava abrir mão de uma estrutura conhecida para construir algo meu. Mas era também a possibilidade de organizar meus horários, trabalhar sem um chefe cobrando metas e ter mais autonomia sobre a minha vida.

Hoje, atuo com psicologia clínica, avaliação neuropsicológica e orientação de carreira, além de manter parcerias com plataformas on-line de atendimento. Uma das minhas maiores conquistas foi sair de uma renda próxima ao salário mínimo e chegar a ganhar R$ 10 mil em determinados momentos. Mais do que o valor, isso representou perceber que eu podia sustentar meu trabalho com as minhas próprias escolhas.

Eu gostaria muito de dizer que bastou começar a atender on-line para tudo dar certo, mas não foi exatamente assim. A clínica precisa de pacientes, e fazer um bom trabalho não significa, automaticamente, que as pessoas vão encontrar você.

Passei a entender que precisava aprender sobre divulgação, posicionamento e aquisição de clientes. Fiz site, investi em tráfego pago, desenvolvi minha presença no LinkedIn, onde reuni mais de 20 mil seguidores, e fui explorar diferentes redes sociais e ferramentas digitais.

Aprendi a usar o Canva, estudei Google Ads, pesquisei sobre TikTok e outras plataformas e comecei a experimentar recursos de inteligência artificial. Hoje, crio meus próprios prompts e produzo conteúdos autorais. Gosto de escrever, e isso sempre fez parte de mim. Gravar vídeos, por outro lado, continua sendo um desafio.

Também precisei entender que nem tudo o que parece uma boa estratégia funciona na prática. Em uma campanha de divulgação, comecei a receber muitos contatos de pessoas procurando terapia gratuita. Fiquei tentando entender o que estava acontecendo, até descobrir que a configuração do anúncio estava indicando justamente esse tipo de atendimento.

Foi um aprendizado técnico importante. Não basta investir dinheiro em uma ferramenta: é preciso conhecer o suficiente para acompanhar o que está sendo feito, interpretar os resultados e identificar quando alguma coisa não está funcionando.

Já investi em site e anúncios, passei por momentos de desmotivação e cheguei a desativar meu site. Nem todo investimento trouxe o retorno esperado. Empreender envolve isso também: testar, avaliar e, às vezes, reconhecer que uma escolha precisa ser revista.

Durante um tempo, eu me comparava muito com outros profissionais. Via pessoas com grande visibilidade nas redes sociais e me perguntava o que estava faltando no meu trabalho. Percebi, porém, que essa comparação estava me fazendo mal. Eu precisava sair daquela posição de cobrança constante e pensar no que realmente podia fazer para desenvolver meu negócio.

Não adianta ter apenas conhecimento teórico, assim como não basta ter experiência sem continuar aprendendo. É preciso pesquisar o mercado em que você quer atuar, entender como ele funciona, confiar no próprio trabalho e construir relações. Muitas oportunidades chegam por indicação e parceria, e isso tem um valor que nem sempre aparece nos números das redes sociais.

Uma das coisas de que mais me orgulho é ter conquistado autonomia. Posso organizar meus horários, planejar viagens, passar mais tempo com meus pets e, quando preciso, tirar um dia ou uma semana para descansar. Para mim, isso faz parte do que significa ter construído um negócio próprio.

Mas minha autonomia não veio sem custos. Já fiz tratamento para ansiedade e hoje faço tratamento para dormir. Sei que parte desse desgaste está relacionada à quantidade de trabalho que acumulei e ao tempo em que tentei conciliar atividades demais. Afinal, durante muito tempo, crescer significava atender mais, estudar mais, investir mais e tentar aproveitar todas as oportunidades.

Aos poucos, entendi que eu também precisava estabelecer limites. Neste ano, decidi desacelerar. Até ouvi de amigos que eu precisava respirar um pouco, e percebi que eles tinham razão. Não preciso estar o tempo inteiro produzindo, estudando ou tentando provar alguma coisa.

O trabalho autônomo tem seus percalços, mas me permite fazer escolhas que antes pareciam difíceis. Posso reconhecer que estou cansada e reorganizar minha rotina. Posso rever a quantidade de atendimentos e considerar minha saúde na tomada de decisões. E isso é libertador!

Hoje, não enxergo o crescimento apenas como ganhar mais ou conquistar mais clientes. Também considero a qualidade de vida que consigo construir com o meu trabalho. Não faria sentido buscar a autonomia que sempre quis e acabar vivendo sem tempo para mim.

Outra coisa que aprendi é que não precisamos construir tudo sozinhos. Participo de grupos de psicólogos e psiquiatras, de comunidades de mulheres empreendedoras e de redes em que profissionais trocam indicações, divulgam seus serviços e criam parcerias.

Em um grupo on-line com cerca de 200 mulheres empreendedoras, por exemplo,  experimentei uma dinâmica de apoio às publicações muito interessante. Testei a estratégia em dois posts e vi o engajamento do meu Instagram crescer de uma forma que nunca tinha visto. Mais do que os números, aquilo me mostrou o potencial de uma comunidade que se organiza para ajudar seus integrantes a serem vistos.

Também passei a buscar parcerias com profissionais de outras áreas. Em vez de depender exclusivamente da produção constante de conteúdo, posso dedicar parte do tempo a conhecer outros trabalhos e encontrar formas de colaborar. Essa troca abre portas e ajuda a conectar pessoas que precisam de serviços diferentes.

A tecnologia também faz parte dessa construção, mas aprendi que ela precisa trabalhar a favor do negócio. Não sou uma pessoa que gosta de estar o tempo inteiro gravando vídeos ou publicando nas redes. Por isso, tento encontrar formatos que combinem com o meu jeito de trabalhar, como textos autorais, conversas e parcerias.

A mesma lógica vale para a organização financeira. Quando comecei a receber como pessoa jurídica, a Cora foi a primeira conta PJ que abri e se tornou o lugar por onde centralizo os pagamentos dos meus atendimentos e das plataformas com as quais trabalho. Uso principalmente o Pix e também a emissão de boletos.

Utilizando as ferramentas disponíveis, fui entendendo melhor a importância de organizar as movimentações da minha empresa e a separar o dinheiro da pessoa jurídica do da pessoa física. No começo, ainda misturava alguns recebimentos. Depois, fui concentrando os pagamentos e organizando melhor as entradas, inclusive as de atendimentos avulsos, que também precisam ser formalizados.

Essa organização me ajuda a olhar para a clínica não apenas como o trabalho que faço, mas como um negócio que precisa ser acompanhado. Afinal, cuidar da parte financeira também é uma maneira de cuidar da continuidade da minha atuação profissional.

Às vezes, brinco com a minha mãe que poderia já ter um carro ou uma casa se não tivesse investido tanto dinheiro nos meus estudos e no meu negócio. Mas, quando penso melhor, lembro que também consegui fazer muitas viagens que queria e me proporcionei experiências que eram importantes para mim. Não me arrependo dessas escolhas.

Se alguém me perguntar o que conquistei até aqui, aos 33 anos, talvez eu não aponte apenas para bens materiais. Penso que a possibilidade de trabalhar para mim mesma, organizar minha rotina, ter mais tempo para as coisas de que gosto e continuar construindo uma carreira com propósito são definitivamente minhas grandes conquistas.

Se pudesse dar um conselho a quem está começando, diria para confiar no próprio trabalho e buscar se especializar, sem esquecer da prática. Pesquisar o mercado, conhecer as ferramentas, construir parcerias e aprender com os erros faz parte do caminho. Também é importante entender que nem todo investimento vai funcionar e que mudar de direção não significa necessariamente errar ou desistir.

Eu continuo aprendendo, testando e revendo minhas escolhas diariamente. Já quis abraçar muitas coisas ao mesmo tempo e hoje entendo que também preciso saber quando parar. O empreendedorismo me deu a autonomia que eu procurava, mas me ensinou que essa autonomia só faz sentido quando consigo decidir não apenas como quero trabalhar, mas também como quero viver.

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